quinta-feira, 3 de maio de 2012

..aqui vai um título bem amoroso..




















Não sei se eu sei falar de amor.
Também não sei se eu quero falar sobre o amor.
Confesso que prefiro sentir o amor.

Prefiro as pernas tremendo,

as mãos suando, o peito quase sem ar,
o coração acelerado e a boca em silêncio.

Prefiro aquela vontade de falar

mesmo que não se tenha nada a dizer,
apenas para ter o olhar alheio com exclusividade,
como um troféu que merece comemoração
com volta olímpica.

Prefiro falar besteira só pra ver

o sorriso puro, sincero e ingênuo 
como o de uma criança.

Prefiro a dor, a angústia,

a lágrima sobre a folha do caderno,
o medo e a incerteza.

Prefiro fazer de tudo pra chamar a atenção, 

o colo confortável, os dedos entre os cabelos.

Prefiro esperar o telefone tocar, 

ligar na hora errada, fingir que não importa
quando a vontade é de sair correndo ao relento
e gritar, até perder a voz, que precisa muito disso.

Prefiro o sonho de que tudo será perfeito 

e a sensação de que a vida caberia 
num filme com final feliz.

Prefiro servir, agradar, defender

ser feliz por ver felicidade.
Estar despedaçado por dentro
e não transparecer (para não contagiar).

Prefiro abraços apertados, palavras carinhosas,

sussurros e sentimentos multicoloridos.

Agora, mais do que nunca,

eu tenho absoluta certeza.
Não sei mesmo falar sobre o amor,
eu prefiro amar.


leitura musical...

Tumbas de la Gloria by Fito Páez on Grooveshark

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

..lá e cá..



















É estranho quando você não consegue mais acreditar que será melhor sozinho.

Quando aquele sorriso doce flerta com o travesseiro,
quando aquele olhar macio se mistura com os lençóis, e as respirações se aproximam.
Quando é mais gostoso passar a noite esperando o dia.

Não que isso seja um sentimento ruim. É estranho, mas confortável.
Soa como voltar para casa depois de uma longa viagem.
Você gostaria de estar nos dois lugares ao mesmo tempo.
Tanto lá, como cá.

O problema é pensar demais antes de agir. Temer a razão.
Querer isso e fazer aquilo. Fazer isso e querer aquilo.
Quem teme a razão, suprime a emoção.
Então você se tranca entre tudo o que é, e o que poderia ser.

Cansei de passar por isso.
De ficar assistindo o inverno por janelas embaçadas.
Esperar o final da história não satisfaz uma alma inquieta.

Não conseguiria escrever um livro,
mas sou capaz de viver um romance.
Com areia, sol e mar,
e uma vida inteira para viver em par.


leitura musical...
Pale Blue Eyes by Marisa Monte on Grooveshark

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

..murais incompletos..





















Sempre traço caminhos tortos para o futuro.

Meus planos nunca são completos. Eles são mutantes, distantes.
Não preencho algumas lacunas pelo simples prazer de vê-las vazias.

Eu penso no futuro para viver o presente. Um passo de cada vez.
Preciso sempre ter um plano para muda-lo a cada dia que passa.

Também não gosto de completar meus murais de fotos.
Eles permanecem sempre incompletos, desfalcados.
São painéis desdentados esperando novas histórias serem implantadas.

Os espaços em branco são como reticências,
eles indicam a necessidade de continuar, de escrever a próxima frase.

Vivo para imaginar o que vem depois. Improvisar diante dos acontecimentos.
É mais gostoso espiar pela fechadura do que escancarar a porta.
Se encontrássemos o pote de ouro depois do arco-íris, não teria a menor graça.

Maldita é essa nossa inquietude, que sempre toma de assalto nosso pensamento.
Nos ilude, atrapalha. Acabamos por acreditar que o fim é mais interessante que o meio.

Não tenho pressa em terminar.
O fim é bruto, estanque.
O meio é flexível e ainda nos deixa uma boa parte do caminho.



leitura musical...
Moonlight Sonata by Beethoven on Grooveshark

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

..ouvinte..



















Eu gosto de ouvir as pessoas. Qualquer pessoa.

Silenciar e absorver tudo o que o seu interlocutor tem para externar.

Modéstia a parte, eu me considero um bom ouvinte.
Presto atenção, me esforço para efetivar o relacionamento momentâneo.

Eu ouço até papo de vendedora de telemarketing,
mesmo com a irritante e quase diária insistência em tentar me vender uma assinatura de jornal ou uma linha de crédito para qualquer coisa que eu queira comprar.

Não sei terminar uma conversa. Não sei interromper uma frase sequer.
Prefiro perguntar, instigar. Pelo simples prazer de ouvir.

Ouço os chatos, os mentirosos e os loucos.
Histórias de bêbados e caretas.

Aprendo com todos eles.

Descubro muitas chatices, novas mentiras e inacreditáveis loucuras.

Escuto tudo simplesmente porque gosto,
mas também porque alguém precisa ouvir.
Alguém precisa ajudar, receber.

Falar é egoísmo, soberba.
Parar e ouvir é humildade,
e humildade deveria ser uma virtude primordial do ser humano.


leitura musical..

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

..conclusões..

ilustração e percepção por freakJC

























Ela me tira do centro
Suspende meus pés do chão
Me entontece, no sentido mais idiota da palavra.

Perco o ritmo, perco a fala, perco tudo!
A boca seca e as mãos suam,
como se vivessem a expectativa de qualquer estreia.

O pensamento vai e volta, passeia sem objetivo.
Fico atônito, desarmado.
É como se dançasse uma música descompassada,
entre pisões nos pés, deslizes e quedas inevitáveis.

Não consigo dizer nada, mas é gostoso sentir.
O perfume inebria o coração,
a proximidade esquenta a pele.

Calculo qualquer movimento, sem muito rigor,
entre os acordes do violão e o dedilhar do acordeon.

Eu poderia ficar assim por horas, dias...
Quente e emudecido,
entre um tango de Gardel e um sorriso de bochechas rosadas.


leitura musical...


quinta-feira, 21 de julho de 2011

..silencioso..




















Há dias procuro encontrar um equilíbrio,
debruçado sobre alguns versos soltos, inacabados.
Qualquer sintoma de lucidez que,
talvez por sorte, talvez por acaso,
me coloque no chão por um breve instante.

Tempo em vão.
Toda essa situação é mais difícil do que parece.
Ando confuso demais,
Pensamentos distraídos, ideias picoteadas.

O silêncio emerge entre um chá e outro,
e a solidão se desenha na janela embaçada.
Mas silêncio demais desespera,
solidão demais ludibria.

Se gritar adiantasse,
seriam berros ensurdecedores pelo ar.
Se chorar resolvesse,
Seria uma enxurrada de lágrimas pelo rosto.

Mas o que transborda são murmúrios,
vozes sussurrando ao pé do ouvido, num tom de conselho:
Estamos procurando as certezas quando deveríamos, 

desde o princípio, perseguir as dúvidas.


leitura musical...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

..ao sabor do vento..

ilustração e percepção por freakJC



















Os aromas são similares.
Os gostos, diferentes.
O beijo é doce, tão sublime quanto o abraço que o segue.
A alegria embriaga o coração.

Gostoso é não lembrar os fatos com clareza,
mas reter as sensações frescas na memória.
Fixar cada momento como um pingo de óleo sobre um tecido frágil.

Impossível não desejar tudo outra vez.
Seria um esforço sobre-humano, completamente desnecessário.
São nuvens carregadas de risos, uma disritmia inocente.
Aquele nervosismo feliz, inconsequência planejada nos mínimos detalhes,
e o frio na barriga que dispensa qualquer palavra.

As coisas já não são mais como eram antes,
nem como poderiam ser.
O riso é fácil, a dor distante.
Não há nada melhor do que viver ao sabor do vento,
e sem a pretensão de chegar à algum lugar.



leitura musical...